Decidí que quero escrever um livro

Pois é: faça o que conseguir com o que tiver em mãos. Eu Tenho idéias e conheço pessoas que têm idéias também. Já tenho gente pra cuidar do prefácio e da capa. Também já sei quem pode cuidar da editoração e revisão do texto. Até tenho quem fará o texto da orelha e aquele mini-currículo do fim. Foi isso que a vida me deu: idéias e gente confiável pra cuidar delas. É claro que há ainda dois pontos cruciais que ainda não foram completamente resolvidos: Tema e Tempo.
Durante a vida fui fazendo coisas tão diferentes, de jeitos tão difusos que na porta dos meus 23 anos já tenho uma miríade de experiências e referências que, no mínimo, de tão numerosas, se contradizem. Aí me complica o tema. Houve tempos de extrema organização e racionalização, mas também sempre me foi necessária uma imensa dose de improvisação no dia-a-dia. Os conhecimentos me vieram em correntes de universalismo e especialização, quase equanimamente equilibrados. Já quis ser feliz, já quis ser intenso, imenso e imaturo. Já fui ideológico pra pensar que devo escrever sobre o que acho autêntico e prático pra ter a certeza de que devo escrever o que as pessoas queiram ler. Em qualquer assertiva que eu fizer, alguém que bem me conhece irá me colocar em contradição. E, definitivamente, me cansei de ter metade do meu texto gasto em possivelmentes, relativos etc.
Me falta tempo, se querem saber. Tempo de pensar nessas coisas todas. De pensar de quem (de qual Tadeu) e pra quem vai a idéia. Dos porquês, do quando e do onde. Tempo de olhar com crítica os catálogos e estantes de livrarias pra imaginar onde vai ficar o meu volume. Tempo de ler as referências. De organizá-las, de criticá-las e moldá-las. Sim, manipulo minhas referências. Elas dizem o que quer que eu queira que elas digam. Isso por que algumas pessoas pecam em botar tudo em livros... talvez não saibam que Nem tudo precisa estar em livros.
As coisas podem estar em sites e blogues, no rádio. As coisas podem bem estar simplesmente nas cabeças para que se as converse e desenvolve. Compare a wikipedia e a barsa. Imprimir algum artigo – e há bons deles – da wikipedia seria assassinar o maior valor desta informação, que é a mutabilidade constante. Outros valores, como credibilidade da fonte e contextualização espacial do conhecimento, ficam menos favorecidos. É imprescindível, no livro, saber quem escreve. O mini-currículo de que falei acima não devia ser tão mini assim! A informação no papel vem de alguém, com alguma formação, algumas experiências em algum lugar e em algum momento. Aí a gente vê que, num tempo em que as coisas podem ser digitalizadas (para entender o que isso significa, saibam que eu posso editar essa postagem em uma semana) o livro funciona como informação documentada.
Mas também há o fator mais prático do livro. Digam o que disserem sobre o maravilhoso futuro: eu não sei ainda de outra forma de se ler em momentos como ônibus, avião, cama, rua (sim, tem gente que lê andando... eu já tentei e trombei, no alto dos meus noventa e tantos quilos com uma velhinha. Ela quebrou a bacia) Então não só há o fator 'documental' do livro. Há o prático. Prático esse compartilhado por outros formatos como revistas, jornais, folders...
Agora uma dica que levo pro resto da vida, para finalizar a reflexão. A parte mais importante de um livro: índice de capítulos. Acho que isso não vale pra romances, mas não quero escrever romance nenhum. Sempre que quero conhecer do que trata-se um livro, depois de saber quem escreve, vejo o índice. O caminho do pensamento – ou os caminhos – estão lá. Isso não é compartilhado pelos outros formatos.
Enfim, não quero os outros formatos e era isso que eu queria escrever. Decidí que quero. Decidí por ter essa vontade. Essa é a decisão.

4 clicaram, e eu os agradeço.:

Junior Almança disse...

Eu quero escrever um romance.
Escrevi um, pra falar a verdade, mas esse literalmente não chegou ao papel.

Eu leio sempre a última frase do livro. Admito que as vezes estraga alguma coisa, mas é o meu modo de escolher. Eu não ligo mto pro final - eu gosto do desenvolver.

Um dia pretendo escrever bem que nem você. Aí talvez eu não queria mais um romance. Hellas.

Marcel disse...

Um passo pre frente ou näo, nessa vida internética voltamos ao uso do folhetim.. heuhuehuehuehu

Lena disse...

"Pois é: faça o que conseguir com o que tiver em mãos..."

Esse é o lema... obtenha tudo o quanto puder e
depois descarte os colaboradores do mesmo jeito
que se faz com as coisas usadas e gastas pelo tempo,
afinal de contas, aquilo que já não nos serve vira lixo
e faz mal pra saúde.

A vida te deu gente e idéias, mas não te ensinou
que tudo o que fazemos tem uma consequência
e que estas não afetam somente a nós mesmos.

Não te ensinou que não se deve simplesmente usar
as pessoas para obter aquilo que desejamos na hora
que nos convém.

Vidas não são como objetos que a gente dispensa.

E não há lugar no mundo longe o suficiente pra te
afastar das responsabilidades e, principalmente,
da tua consciência.

Você precisa aprender a ouvir críticas sobre si mesmo.

Fugir, desligar o computador, o telefone, mudar de cidade
não vai te fazer crescer e lidar com isso do jeito certo.
Só te leva a magoar pessoas.

Não era eu o problema. O defeito (como você mesmo me definiu numa foto).

Você continua "sozinho". Sem as atividades sociais tão bem quistas.

Se você quizesse mesmo jogar futebol, não seria simplesmente uma garota
chateada que iria te impedir.

E se antes você "só tinha eu e o André" e queria mais gente à sua volta...
o que você escolheu?

Acho que você gosta de solidão. A solidão é amarga, mas quando isso é
uma escolha pessoal, não se pode culpar os outros por isso. Ou dizer que
são os outros que te fazem mal.

A Ruiva disse...

Nossa, fiquei até sem fôlego lendo o seu post... nossa que palavras, você faz uma escrita maravilhosa... eu leio bastante livros de todos os estilos, porém acho que por os que eu gosto mais serem romances, acho que não tenho um vocabulário e arranjo de palavras tão bom quanto o seu... Parabéns, se é que os parabéns dada por uma garota qualquer serve de alguma coisa...
você a partir de agora vai constar nos meus blogs favoritos... Abraço!