Consentimento

Algumas coisas boas vêm da práxis de docência de um léxico estrangeiro. Dentre elas um prazer e zelo diários pela língua materna e seus maneirismos próprios [certo hermetismo vem junto, parece]. Sempre fui adepto – mesmo sem nunca ter qualquer base formal – da idéia de que língua é ferramenta do pensamento, além de ferramenta de comunicação. Pessoas diferentes, lugares diferentes, pensamentos diferentes: falar diferente.
Na postagem passada deixei em suspenso [não sei ainda se como jogada primitiva de marketing ou por preguiça mesmo] uma diferença de terminologia entre inglês e português do 'bom senso'. O Marcel – correspondente austríaco – ainda jogou mais uma pitada de Tagelsenf nas idéias com o 'Gesunder Menschenverstand', o que me inspirou um pouco mais. Mas não muito, que é pra não encher a bola.
O nosso bom senso é bom também na França, comum em terras de falares inglês e espanhol e uma boa sanidade humana lá com os comedores de salsicha.* Porém há de haver diálogo entre gentes de tantos lugares e o conceito de Sensus communis, presente no pensamento formal desde Aristóteles há de ser legível a todos. Biologicamente somos da mesma espécie por que podemos nos reproduzir [mesmo algumas mulas humanas que conheço são capazes disso]. Aí a gente tenta manter-se filiado também pela língua, já que nem todos chegam aos finalmente. Quando não há como, não há entendimento, entra em cena outra coisa que compartilha-se entre locais, linguagens e mais um monte de outras coisas: a arte de consentir. E desta arte tenho aprendido muito com alguns alunos.
No início irritava-me um interlocutor que consentia e mostrava-se ciente do que eu dizia para, quando questionado, provar que consentia sem saber bem com o que. Em conversas, quando alguém precisa falar durante um bom tempo sem ser interrompido – o que é impossível com algumas pessoas-mula supracitadas – as vezes é saudável que se demonstre interesse ou, no mínimo entendimento. Fiz um teste num curso de conversação avançado esses dias. A orientadora do grupo pediu que não respondêssemos e deixássemos a pessoa falar conosco por 4 minutos ininterruptos. Pra mim, um aceno de cabeça é resposta. Fiquei estático enquanto a garota se desesperava na minha frente. Nota mental: responda sempre.
Aí ontem eu voltava pra casa [pronto, agora parece um blogue!] e parei numa lanchonete do chinês pra mais um atentado contra minhas veias. Sentei-me e assisti o jornal, pra me distrair. Falavam de manifestantes pró-Tibete e tocha olímpica e coisas assim. O homem estava ávido por informação e comentava toda cena com alguns monossílabos sino-portugueses totalmente incompreensíveis. Foi neste momento que fechei os olhos e lembrei, num instante, como naquele filme do kickboxer da farinha nos olhos, dos ensinamentos de meus pupilos.... acene e copie a expressão. E era ira, felicidade, graça... tudo o que ele fazia, eu copiava e acenava, ávido pelo fim do salgado.
Acho que passei uma situação bem ridícula.
Aos anglófonos: Just nod your head!

Passar bem.


*Nota do autor: acabo de ler um livro em que havia um alemão muito gordo com uma puta espanhola. Ainda estou com as imagens na cabeça. Desculpem-me.

3 clicaram, e eu os agradeço.:

Lena disse...

Consentimento
Diálogo
Com sentimento
Dia logo
Chega logo
o
Dia de falar
Palavras com sentimento.

Comunicar ações.

pré-escritor disse...

Consentir definitivamente, ao menos nos casos "post-citados", não é co-sentir.

A little less conversation, a little more nodding.

Martini disse...

Dao risada nuns momentos muitos pitorescos da conversa, os tais orientais. To morando com um banqueiro japones de 29 anos que deve falar umas 40 palavras em ingles. Se mata de rir com qualquer coisa que eu falo pra ele. Ate quando eu pergunto se ele quer acucar no cha. Mas e boa gente. Se nao for, eu nunca vou saber.

abraco, bom e velho!