Hoje - 11:10 linha esmeralda

Na faculdade a gente aprende a fingir. Fingir que sabe fazer algo até que alguém te contrate e você REALMENTE aprenda algo útil enquanto trabalha. Eu aprendí a brincar de CSI com papel velho. "As manchas escurecidas no canto das páginas indicam que o referido caderno de partituras foi intensamente utilizado ou consultado, o que pode indicar que a peça tenha tido repercussão em sua época. [ou que o filho do compositor gostava de brincar de cantor e sumiu com o tal caderno]"
Enfim, a gente procura informações não tão óbvias, por que estas são mais confiáveis. Exemplo: Carta de Fulanício a Ciclanéria, dois de agosto de muitos anos atrás: "Meu amor, to na facudade pensano ni ocê. Pede pro meu pai mais dinheiro pus livro." O autor diz o que quer, logo, não é tão confiável quanto o guardanapo do Botequim Copo Sujo no qual a mensagem está escrita.
As pessoas todas somos autores. Temos mensagens a passar. Uma mochila que dirá: "Sou estudante"; o modo como seguramos a bebida que dirá: "sou interessante"; o modo como caminhamos que dirá: "tenho direito à fila preferencial no banco". Mas passamos mais informações além destas (calma, não vou repertir O Corpo Fala - é só ler)
Ela escolhia o toque do celular, aparelho que segurou durante toda a viagem na altura do peito - um tanto desconfortável. Parecia ter adquirido-o recentemente. As roupas combinavam muito bem, inclusive o sapato branco. Somente duas coisas destoavam - o relógio e o prendedor de cabelo, ainda que harmoniosos, traziam um ar de menina que parecia fugir ao figurino cuidadosamente pensado. Ela queria dizer "natural", eu lí "iniciante". No meio da leitura, os olhos se encontraram e os sorrisos disseram a mesma coisa um pro outro. Uma pena que no trem, próximo ao meu destino, não havia mais nada a dizer.

2 clicaram, e eu os agradeço.:

Márcia disse...

saudades do Tadeu!

junior disse...

pensando assim, o mundo vira do avesso. todo mundo é escritor, mas não são muitos os que sabem ler. de volta à tv.